sexta-feira, 23 de outubro de 2009

01 - DAS BRENHAS DO FIM DO MUNDO OU ONDE FICA CURIAPEBA?...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009
     Nos desrumos sacolejados desta vida, sobrou para este escriba a desdita, o infortúnio de ver-se metido, sem norte, paradeiro ou rumo, e quantos sinônimos forem, às beiras da serra do Itiúba, na Chapada Diamantina baiana, engolindo poeira, cheirando estrume de animais e com o focinho embicado para o incerto das direções.
     Seguia a direção do vento, pela necessidade de defender-me da poeira assoladora que parecia buscar-me, intencionalmente. Se “O sertanejo é, antes de tudo, um forte” eu não sei, todavia asseguro: ao menos o daquelas paragens come um pó danado.
     Viajava a pé, em carro de bois, carroça, lombo de burro, etc., tudo o que queria, em verdade, era sair voando daquele fim de mundo com uma urgência inadiável.
     Tudo na vida tem um fim e, finalmente, fui parar em um lugarejo que, segundo me disseram, chamava-se Curiapeba; isso lá pelas seis da tarde, após longas horas de poeira na cara e numa quebradeira de dar dó. De imediato meus ouvidos distinguiram o que parecia ser um denunciador badalar de sino. Eram mesmo seis horas.
     Confundia-me as ideias o fato de eu, um almofadinha confesso, sem nome, com a algibeira furada e cujos únicos pertences eram rabiscos literários, esboços de poesia, estar ali, naquele fim de mundo.
     Bem, recordações à parte, lá estava eu, depois de um sôfrego jantar, composto de pescados da região e ovos cozidos, devorados atropeladamente, na mesa do bar dum certo João Emílio Krauser, que, insistentemente, pedia que eu experimentasse uma tal catiloia, bebida típica, feita pelas calejadas mãos daquele povo, de notável e apurado preparo e de um esmero quase artesanal. Não cedi, como é óbvio, e consegui arrancar do mal-intencionado a informação de onde poderia pernoitar com pouco dinheiro e com a devida segurança; o tal indicou-me um hotel de nome Toco Preto & Barroalto como sendo o mais apropriado. Despedi-me do cortês e mal-encaminhador senhor, que queria me enfiar catiloia goela abaixo, e lá fui para o repouso dos justos.
     Aquela bebida, entretanto, deveria ser algo além do fabuloso, pois todos a bebericavam. O único a destoar da comitiva local, pois denotava ares de turista, era um japonesinho que, depois vim a saber, chamava-se Paulo Hijo, o qual observava mais do que gastava, não bebia nada, conversava um pouco e a tudo era atento, uma espécie que leva à falência qualquer bodegueiro. Travei certa amizade com o oriental, dono de uma impressionante lucidez literária e, segundo penso, pertenceria, um dia, certamente, à seleta classe dos homens cultos do país.
     Em toda cidadezinha interiorana ocorre um fato impressionante, o de todo mundo cumprimentar todo mundo. Assim, no caminho entre o bar e o hotel, cumprimentei tudo quanto era gente.
     O Hotel era simples. Fui atendido por uma espécie de gerente improvisado, e cujo único interesse, acreditei, era o de saber se eu poderia pagar pelo pernoite já que minha aparência não despertava nenhum ânimo. Fechei um acordo considerável com aquele rapazote, cujo nome me foge, tomei um banho, fui descansar.
     O melhor, entretanto, aguardava-me. Varei a noite em luta corpórea com sanguinárias muriçocas e, em plena madrugada, regada a suor e insônia, covardemente surrado por aqueles seres quase invisíveis, me perguntava: Onde, diabos, fui meter-me? Eu, um ex-colunista e colaborador de vários jornais na capital paulista, que tive, engasgados em minha genealogia, avós e bisavós donos de vastas propriedades na zona da mata, nas Minas Gerais, possuidores, além de terras a perder de vista, de cafezais, plantações das mais diversas, rebanhos e mais rebanhos de equinos, caprinos e bovinos! Quem não conhecera em tempos passados a fama e poderio dos Torquato Velho? Eu, educado nos rigores do classicismo, por um pai enérgico, de moral inabalável e circunspeto professor! Eu, cujos ascendentes fizeram época, inclusive nas letras – cuja paixão herdei –, eu, um sopa-rala da família, lá estava. O certo na verdade é: escrevia, sobrevivia de meus escritos, não tinham eles nada de raro e isso eu já sabia, não ganharia jamais nenhum Nobel, mas escrevia, fazia poesias, se alguém as lia, essa é outra história. Escrevia, independendo de quem se desse ao luxo de ler-me, com o clássico rigor dos eternos perseguidores da perfeição, buscando o aprimoramento no glorioso mundo das escritas.
     Naquele momento, porém, isso não importava em nada, estava sendo devorado vivo por batalhões de muriçocas e, conjecturo, àquela altura, eram já verdadeiras irmãs consanguíneas, posto que houvessem se deleitado e banqueteado deste liquido avermelhado abundante em minhas veias.
     Aquela era uma noite que prometia se arrastar pesadamente sobre meus ombros.
     Contrastando com o zumbido quase ininterrupto daqueles monstrinhos, ao longe se ouvia um lamentar agourento de uma acauã e, mais longe ainda, já nos ermos da madrugada, a cadência surda, monótona e desengonçada das mulas de carga tangidas pelos tropeiros rumo às brenhas do alto sertão... Além de tudo isso, reinava o silêncio e nada mais...

          Acauã!... con’ã!.. Vá-có!...
          Acauã!... con’ã!.. Vá-có!...

          Um grito longo vaticina,
          Em timbre oco, agourento,
          Que uma vida se destina
          A espalhar-se como vento.

          Acauã!... con’ã!.. Vá-có!...
          Acauã!... con’ã!.. Vá-có!...

          E neste lamento a acauã,
          De angustiada precisão,
          Mata-me o dia de amanhã,
          E os demais qu’inda virão.

          Acauã!... con’ã!.. Vá-có!...
          Acauã!... con’ã!.. Vá-có!...

          Pois nesta ave agourenta,
          De um piado grosso, forte,
          Repousa a noite sonolenta,
          E um canto lúgubre de morte.

          Acauã!... con’ã!.. Vá-có!...
          Acauã!... con’ã!.. Vá-có!...

     A macabra ideia de tudo que parecia esconder aquele vaticínio pesaroso e triste feria a madrugada silenciosa.
     Atormentava-me o canto vaticinador e tenebroso daquela estranha ave, cujo alardear doía-me na alma e nos tímpanos. Ouvindo tudo aquilo e vencido pelo cansaço, dormi finalmente.
     Pela manhã, sem o merecido descanso e tendo os céus por testemunha de que as muriçocas têm o vigor de um leão e agem de um modo igualmente impiedoso, dirigi-me ao único semanário local, intitulado Os Sertões e, diga-se de passagem, de uma qualidade considerável, onde fui atendido pelo seu editorialista, um tipo amorenado, casco de cuia, baixote, metido a Jorge Amado e que tinha na cabeça não sei quantos livros lidos. Fiquei impressionado, logo de cara, pela qualidade vernacular e o sóbrio conhecimento livresco e literário do sujeito. Era uma verdadeira biblioteca ambulante. Se tocassem fogo em qualquer biblioteca universal, não teria a menor importância, o tal trazia tudo memorizado, era só recompilar.
     Também era escritor, e tinha algumas resenhas e contos de uma impressionante qualidade, como testemunharia eu mais tarde.
     Mandei-lhe de cara uma pergunta:
     – Sou o escritor fulano de tal e tenho interesse em publicar algumas poesias no seu jornal e, quem sabe, editar um livrinho aqui por estas bandas, que te parece?...
     Disse-me ele:
     – Sou ouvidos, fale...
     O “sou ouvidos”, seco e direto daquele sujeito, ecoou como um pontapé no traseiro e deu-me a nítida impressão de que eu havia topado com o vencedor do torneio anual dos antipáticos, um autêntico casca grossa e, nessa altura, nem me importava se casca grossa tinha hífen ou não. Encontrava-me então diante do mal afamado Aristarco Vieira de Melo; o afrontador da mediocridade, dos politiqueiros, dos pseudo-poetas e, finalmente, um genuíno antipático, de um azedume inconteste, um tipo a quem o seu “olá, como vai” serve de prefixo ao “até logo”.
     O colunista, hei de confessar, mostrou-se, depois de demorada prosa, dono de uma extrema simpatia, mas, mesmo assim, um casca-grossa. Como isso era possível não perguntem a mim.
     Bem, trocando em miúdos, o fato é que o semanário Os Sertões cobria toda a região e disputava lugar com outros jornais da capital baiana, com os quais concorria à cata de leitores, anúncios, classificados, proclamas, etc.
     Tudo acertado e após uma saborosa e nietzschiana prosa sobre Augusto dos Anjos, cujos escritos eram, para mim, uma espécie de confessionário íntimo, remédio para todas as ocasiões, ficou Aristarco Vieira de Melo (agora já quase um parente meu) de apresentar-me a um editor dali de Curiapeba, alguém não sei o quê Waluá, em um momento oportuno, e deu-me até um exemplar de um dos livros editados por ele. Tratava-se do livro intitulado Sertão: com destaque ao pássaro sofrê e outros viventes vertebrados e invertebrados da Chapada Diamantina baiana, da escritora e socióloga Maninha de Matos Sampaio, o qual fiquei de ler oportunamente.
     Despedimo-nos, passaram-se os dias, retornei várias vezes à redação de Os Sertões, fizemos uma bela amizade, eu e o tal do Aristarco. Nesse período sustentava-me graças a parcos recursos remetidos por um editor da capital paulista através do Banco Alfomares do Nordeste Brasileiro, e ainda hospedava-me no mesmo hotel e continuava suportando o olhar de desconfiança do homenzinho improvisado de gerente que, penso, além do pagamento pelos aposentos, tinha em mente que eu deveria apresentar um certificado de autenticidade das cédulas, ou algo assim. Olhava-me como se eu fosse o responsável pelos infortúnios da humanidade. Excetuando-se este e outros pequenos entreveros, eu agora havia conseguido derrotar definitivamente as muriçocas.
     Nos dias seguintes tive a oportunidade de travar conhecimento com o Dr. Antonio Polissílabo Saraiva, o então prefeito (gente graúda não muda em lugar nenhum deste mundo); também com o Dr. Walcírio Toneleiros Waluá, provavelmente um parente do editor anteriormente citado; o pastor Genocídio Geronso Garrafino; os padres Cosmorâmico Canindé e Joaquim Torres Barrada, este último, além de um perverso glutão, era originário das terras de Cervantes. Também conheci Odilon Pederneiras Castrado, alcoviteiro-mor da cidade, um despudorado, cuja língua solta prestava-se a toda sorte de mexericos; deliciei-me com os pescados do velho Jequetiá Elisindro da Conceição; e tive a infelicidade de cair em desgraça junto à benzedeira Marculina Gravataí Horizonte, pois fez ela o favor de espalhar por toda cidade e cercanias que eu tinha partes com o tinhoso, só porque disse o que pensava sobre suas artimanhas, uma velha embusteira, isso sim era o que ela era, uma alcoviteira.
     Valeram-me alguma coisa aqueles conhecimentos: Fui convidado, por intermédio de Aristarco, para organizar recitais em nome da Secretaria de Cultura da Cidade; já não era visto como um crápula pelo homenzinho do hotel; debulhei uma série de palestras em escolas, ministrei aulas particulares aos rebentos do Coronel Turmalino Olhugordo Alcebíades e, assim, a vida parecia endireitar-se, retomar seu rumo no tortuoso ermo dos trilhos solapados pelo destino.
     Travei um bom relacionamento com Maninha de Matos Sampaio, uma fidalgota pouco simpática. Conversávamos longamente e, em várias oportunidades, sobre as novas tendências literárias surgidas após a Semana da Arte Moderna, sobre viagens e sobre seu novo livro, prefaciado por Aristarco. Ainda conheci, e na mesma ocasião, seu marido, Zito Borborema, um sujeito que deveria ser processado pelo simples fato de ter nascido. Ele era uma afronta ao gênero humano, o último remanescente vivo dos Cro-Magnon, chego a pensar.
     Nas semanas seguintes, acabei por conhecer a metade calculada da cidade, onde encontrei as pessoas com os nomes mais esquisitos, doidos e estrambólicos dos quais se podia ter notícia.
     Poucos dias depois deixei o hotel e fui hospedar-me, a convite, na fazenda Rabo de Peixe, de um fazendeiro local, um certo Dr. José Vinhais Veloso, sujeito tarracudo, dado a poucas palavras, desses que é preciso açoitar impiedosamente para ouvi-los dizer algo, e que, segundo alguns falatórios, era um renomado médico na capital baiana, onde passava a maior parte do tempo. O convite havia sido feito em verdade por sua simpática e bondosa esposa, dona Yolanda Guarabyra, numa daquelas raras visitas à cidade.
     Os ares da fazenda eram esplêndidos, travei conhecimento com um agregado de nome Bendengó, a quem todos (do padre ao bispo) chamavam de “O Vaqueiro Bendengó”, por exclusiva conta de seu ofício. A ele imputo a minha paixão pela cidadezinha.
     Daquela fazenda saí poucas vezes, uma dessas se deu em um domingo, quando fui ver de perto os festejos religiosos de Senhora Sant’Ana, ponto alto das festividades em Curiapeba. Foi onde reencontrei o escritor Paulo Moriassu Hijo e mais alguns jovens escritores, dentre eles um professor rastafári de nome Macário Ohana Vangélis, Aroldo Miguel, V. C. Meira, J. M. Nascimento, e Marcos R. Moreira, todos paulistanos. Conversamos um quilo de coisas e fui meter-me de andarilho pela cidade, detendo-me um demorado tempo na Praça das Boiadas.
     Sempre gostei das praças. Gostava de passar longas horas deliciando-me em fazer nada, absolutamente nada em uma delas. Eram horas essas que o mundo não as tem em conta na somatória total para o “fim dos dias”, porque não são existentes, é uma ruptura no tempo. É o momento em que tudo para e coisa alguma tem a menor importância.
     Algumas moças desfilavam à busca de pretendentes, coisa nada rara nas cidadezinhas interioranas. Encantei-me com os olhares pueris e rosto suave e ingênuo de uma delas. Por trás das roupas simples, sobressaindo-se uma calça amarela, ela fitava os céus à busca de nada, tinha os trejeitos de quem vive um sonho interminável. Mais adiante, um senhor amorenado sustentava um tripé onde um macaquinho vaticinava sobre a sorte dos transeuntes. Aquele tendencioso senhor queria fazer crer a todos que o monozinho era a cura de todos os males, uma espécie de profeta silvícola. Os que ali estavam, crentes ou não naquela façanha, sempre paravam para conferir.
     Toda praça sofre a reputação de ser o coração de uma cidade, aquela também, fosse pelas belas flores, pelas frondosas árvores ou pelo arrastar melancólico das horas. Lá estava eu, sorvendo o genuíno repouso dos que buscam estar a sós. São momentos em que a solidão tem o doce sabor do atemporal.
     Imperceptivelmente sobreveio-me aos ouvidos uma cançoneta:

     Toca na praça o realejo
     E a moça de calça amarela
     Ensaia roubar um beijo
     Pra atender ao desejo
     Da praça já dentro dela.

     Como é leve ver a graça
     E não saber donde ela vem.
     O macaco no centro da praça
     Vê a sorte de quem passa.
     E ele, que sorte tem?...

     E nesse eterno refluir
     Da mesma coisa universal,
     Cada fração de existir
     Parece nos prevenir:
     Você também será igual.

     Não vi mais Paulo Hijo naquela cidade, e nenhum dos recém-conhecidos escritores. As festividades de Senhora Sant’Ana estavam em seu apogeu. Caía a tardezinha assombrada com a noite vindoura e fui ter com Bendengó que se prostrara aguardando-me pacientemente no fim da Praça do Comercinho, para retornarmos à fazenda.
     O tempo passado naquela fazenda foi de um quase total isolamento, só escrevia e mais nada. Ia semanalmente ao Banco Alfomares e à redação de Os Sertões. As minhas idas à cidade foram diminuindo consideravelmente. Aumentou o convívio com as pessoas do local. As longas e antigas conversas com Aristarco agora ganharam lugar com Bendengó, um sujeito entendedor de um tudo, desde caçada de onça ao cultivo da macaxeira. Com ele ganhei verdadeiro gosto pelo sertão e pelas paragens onde agora vivia. O cabra, já sexagenário, era do tipo que não bota a mão em cumbuca. Desconhecia o medo, era contido e sóbrio. Com ele aprendi sobre épocas de plantio, colheitas, retiro do gado, picadas de cascavel, caçar tatu e um monte de outras coisas que encheriam um livro. Em tudo que me ensinava ele concluía em tom de admoestação: “meo fio, nóis in tudu tem di sê prosistente i nessa vida num se á di tê marquerença”.
     O certo é que o acérrimo protagonizador das dores do mundo, Augusto dos Anjos, juntamente com seu pessimismo, repousavam agora numa gaveta qualquer do quarto onde eu dormia.
     Seguiram-se noites e mais noites à beira de um fogo fraco, sustentando o incerto dos dias nas cordas mal afinadas da viola de Bendengó, um violeiro entre médio e ruim. Este matuto saiu-me melhor que a encomenda; um negralhão de olhos brancos, barba rala, cabeça esbranquiçada, todos os dentes na boca, conversa mansa e um coração maior que o corpo. Era nobre, terno e amável, isso estendido também à família, especialmente à filha, Filó, que despertou em mim os mais insuspeitos sentimentos humanos.
     Quando era noitinha sempre se escutava aquele capiau sair com estas palavras: “zanan, filó, didinha, vem prosiá cum nóis”. E aí a noite ficava pequena e o dia mais distante.

02 - FILOMENA CARRANCA BENDENGÓ

Já era fim de tarde.
No fogão a lenha, alguns tições mornavam a água para o banho. As brasas incandescentes afastavam o entardecer frio e enchiam de magia a noite que se aproximava.
Era convidativo e agradável o aroma que surgia da lenha queimada e dos vapores das panelas. Os últimos raios de luz despencavam-se no horizonte para embrenhar-se no colo suave da noite. A brisa vespertina prenunciava uma noite calma. Surgiam ao longe as primeiras estrelas, desenhadas no firmamento como se fossem rabiscos da mão de Deus.
A noite parecia reconhecer o cansaço do homem do campo, vencido pelas agruras do dia e não lhe impunha mais nada. O dia fora todo dedicado à lida no roçado, pois, de extensa, a fazenda consumia-nos todo o tempo.
As plantações de jaca, manga, aipim, milho, feijão, batata-doce, mandioca, etc., contribuiriam para o sustento da casa.
Foram boas as colheitas naquele ano. Os mantimentos enchiam as tulhas, a despensa, o paiol. Uma parte considerável da lavoura, como sempre, seria destinada ao comércio.
Em dias de feira, Bendengó era todo cuidados. Preparava-se com exagerado esmero. Era metódico e agia como se em uma espécie de ritual, depois atrelava os animais e rumava para a cidade. Com ele ia Filó e, vez ou outra, eu.
O velho tinha um lugar reservado aos sábados na tradicional feira da Praça das Boiadas, no centro de Curiapeba. Ali montava a barraca para negociar seus mantimentos, queijos, manteiga, mel, manga, jaca, etc.
Embora fosse grande a procura por mantimentos, sal, rapadura, azeite, e outros gêneros, alguns pescadores, a exemplo do velho e bondoso Jequetiá Elisindro da Conceição, dedicavam-se ao comércio de pescados. Os peixes eram apanhados ali mesmo no rio das Voltas, no Canjica e rio da Onça, que ficavam próximos dali. Esse era um excelente pescador, bom homem e péssimo comerciante. Tudo o que dizia pra oferecer seus pescados era: “A u pexe, Ó u pêxe, A u pexe!...”
Os rios ofereciam abundantemente sua farta variedade de peixes, dentre os quais o tucunaré, o pintado, o mole, o cobó, o bagre, o mandi, o dourado, a traíra, etc. Alguns desses rios eram o sustentáculo da vida em várias cidadezinhas da região.
Agregados de pequenas fazendas e outros moradores também lucravam com a feira. Era o caso de Odilon Pederneiras Castrado e seu comércio de artesanatos. Odilon, além dos dotes para alcoviteiro-mor, possuía inegáveis habilidades para a confecção de esteiras de palha, balaios de taquara, embira e cipó, redes de sisal e linho, e uma infinidade de peças de fibra e de algodão cru e caroá.
A região, aliás, era uma grande produtora de algodão e de fibrosas, principalmente o sisal ou agave, de onde surgiam os fios, barbantes, cordas, cordéis, tapetes, sacos, bolsas, chapéus e uma interminável série de artigos de artesanato que, nas mãos de Odilon, ganhavam vida.
Havia também os trabalhos em couro, como as alpercatas, os gibões, as bolsas, celas, cordas, perneiras, sapatos, cintos, relhos, arreios, guarda-peitos e chapéus. A matéria prima era de origem bovina, suína e caprina, fornecida por Clavicórdio Tenório Suíno dos Ovos Sujos, um negociador sagaz que movimentava, sem exagero, mais dinheiro que o Banco Alfomares. O couro mais apreciado, entretanto, e também o mais caro, provinha do mateiro, uma espécie de veado campeiro largamente encontrado da região.
Em outras barracas, dava-se uma espécie de “troca-tudo”, “feira da barganha ou do rolo”, onde tudo era possível, podia-se adquirir desde uma máquina de plantio até um prego enferrujado.
Havia também os “Poetas de Feira”, como eram conhecidos por lá. Eram repentistas, trovadores, cordelistas, cantadores que exibiam seus improvisos ou vendiam os seus livretos. Estes ficavam dependurados em um extenso fio de sisal (o cordel), daí o nome “Literatura de Cordel”, como vim a sabê-lo mais tarde. O autor fazia uma prévia de sua obra cantando e declamando. Não preciso dizer que li quase todos aqueles cordéis. Havia também os cantadores de “embolada”, como o nome já diz, às vezes não se entendia nada, nem os próprios cantores, suponho, eram capazes de decifrar aquilo que cantavam.
Entre as pessoas que marcavam ponto por ali estava Jota Caveira, um sujeito de caráter indefinido, e o tarimbado e provocador poeta Zeca Brotoejas, um intelectual que suportava o peso do mundo sobre a “cacunda magra” e de suas declamações, regadas a catiloia, surgiam coisas como o seu “Corrupião”, no qual eu fiz o favor de dar uns pitacos e Talinho Malino de Menezes musicou:

A terra trama e reflete
Um canto negro: Escuta,
Que o chão ferido repete
É a morte vencendo a luta

E o tempo vira um espaço
No embocadouro servil
Que contrapõe-se ao compasso
Do canto que se ouviu

E é isto mesmo, assunta
Menino que o mundo vem
Levar-te a uma pergunta
Que u’a reposta não tem

Travei com o Brotoejas umas “profias”, certa vez, nada de importante, perdi feio.
Mas, bem, o ponto, eu diria, alto, daquela feira, era a barraca de Filó. Uma grande banca de artesanatos, onde ela expunha várias peças ornamentais, xilogravura, pintura sobre telha; enfeites e trançados em fibra de coco e embira de bananeira e, o mais apreciável, os trabalhos em tecido: panos de prato, tricô, crochê e os bordados. Seus dotes eram conhecidos e apreciados por toda Curiapeba.


* * *

Filomena Carranca Bendengó, ou Filó, valia, em verdade, mais que o prometido por sua bela aparência. Suas características faciais graciosamente negras não denunciavam, certamente, em nada, os traços do pai, pois este, embora dono de porte físico e tez joviais, não lembrava, de longe sequer, os belos traços da filha.
Filó se assemelhava a uma fidalga africana. Era de uma estatura mediana, olhos negros e espertos, corpo esbelto, mãos finas e delicadas, nariz acentuado e lábios salientes. Possuía a delicadeza de uma gueixa negra e a simpatia de uma cortesã. Seus olhos revelavam o não dito pela boca.
Era uma mulher em tudo, no sentido máximo da palavra.
Havia concluído seus poucos estudos ali mesmo em Curiapeba.
Diz-se a boca pequena ser prudente desconfiar de uma mulher que revele a idade e, igualmente prudente, duvidar quando a esconde. Filó não tinha esse problema, sua idade estava estampada no rosto, não precisava dizer ou esconder nada. Tínhamos lá uma diferença de idade, algo entre oito e nove anos.
Desde o início, ela nutrira por mim certos sentimentos aos quais confesso haver correspondido, a princípio, despretensiosamente e, ao final das contas, com as maiores pretensões do mundo. Se ia dar em algo não sei, mas eram momentos de indizíveis promessas e de uma rara ternura.
Havia entre ela e Maninha uma diferença que despencava para o absoluto, pois a segunda, em não raras oportunidades, tinha a delicadeza de uma bigorna e rasgava o verbo sem nenhum pudor. Era simpática quando queria, e quase nunca se dava a este luxo.
Filó, ao contrário, em toda sua pureza, era capaz de observações que, a rigor, me deixavam perplexo. Tinha ela aquele raro talento conferido pela sobriedade às pessoas cultas. Esta era a prova irrefutável da diferença abismal entre o intelectual e o culto.
Pareceu-me ser o agreste um professor de notável e confessa maestria e ela, uma dedicada e excelente aluna. Podemos ajuntar a isto suas qualidades naturais para as artes – era uma perfeita artesã – fazia lá suas pinturas, moldes em cerâmica, alguns desenhos, onde retratava encantadoramente a arte nordestina, além de costurar, bordar, etc.
Em breves e preciosos momentos, servi-me das observações de Filó, que tinha, para tudo, uma sugestão sensata.
Era eu ainda um convicto partidário do augustianismo. Conservava em mim, vítima confessa, uma quase febril atração pela poética de Augusto dos Anjos, quer fosse por seu lirismo excepcional, ou pelo anseio metafísico.
Havia um algo em tudo aquilo que me arremetia a uma leve “Tristeza”:

A tristeza é uma neblina
Estreita que acotovela
Na lembrança longa e fina
A imagem surgida dela.

E, na rua sempre fria,
Transcorre o dia molhado,
Em resposta que não sabia
Ao algo não perguntado.

E de assim, quase surpresa,
No instante que antecede,
Em uma tal delicadeza,
Como alguém que se despede.

Ocorre que nunca tive grandes pretensões literárias. Estes sentimentos, de gênio literário, tiveram vez, sucumbiram e foram enterrados ainda na adolescência. O único sobrevivente em mim era o gosto pelo sublime, pela arte. Vêm-me à memória trechos do livro Solilóquios, escrito pelo nômade Ibrahim Ibiza:
"... toda poesia, antes de pertencer a um poeta, já existia. Era uma entidade viva. Enamorou-se de um poeta e por ele foi roubada, num ato tresloucado de puro amor. Pela mais pura e ébria paixão... E antes de que por ele fosse tocada, existia em si mesma..."
”A poesia pertence ao poeta até o momento em que é escrita, a partir daí ela pertence a quem lê.”
“Se tu houveres de ler-me, faça-o com a mesma intensidade com que escrevi. Se não fizeres assim, a poesia te será boa ou ruim, mas não será poesia. Eu escrevi com a alma, não me leia com os olhos.”
Pela tardezinha, retornavam Bendengó e Filó, extenuados e trazendo consigo o cansaço acumulado durante o dia.
Depois de um banho e de uma boa ceia, lá íamos nós prosear até quando o sono rompesse nossa inútil vigilância.

03 - UM ARTESÃO ALÈM DO TALENTO

Era uma manhã como nenhuma outra. Essa era uma característica naquela cidade: os dias nunca eram iguais.
Bendengó convidou-me para acompanhá-lo à cidade.
Íamos à agência dos correios com algumas correspondências para o Dr. Veloso.
Chegamos ainda com os primeiros raios de sol.
Pendências resolvidas, Bendengó achou de apresentar-me a um, segundo ele, renomado escultor da região.
Chegamos e, após as apresentações, entabulamos uma boa prosa sobre sua arte.
Sua oficina era modesta e acolhedora, era uma espécie de ventre, onde a criação operava prodigiosamente através das mãos simples e devotadas daquele septuagenário.
Aureolindo Taramela Quinto era o quinto dos doze filhos de Seu Custódio, que veio ter em Curiapeba nos tempos do garimpo, quando a valentia era uma espécie de moeda corrente na região. Seus antepassados haviam sido escravos dos Alcebíades, trabalharam, ali naquela mesma região, na mineração e na agricultura. Foram trazidos por conta da descoberta do ouro, em fins do século XVIII, ao mesmo tempo em que se deu na região uma espécie de febre colonizadora motivada pelo nobre minério e pelas ganas de riqueza.
Com o passar dos anos, e por dispor de um talento natural, Aureolindo e o irmão Fortunato foram trabalhar na Olaria de Indumentário Venceslau Carmelinho, a quem chamavam, não sei por quê, de Seu Gimenez. Adquiriram por lá todo o conhecimento para o trabalho com barro e argila, mas, somente mais tarde, Aureolindo (agora sozinho) dedicou-se à arte dos adornos e aos finos trabalhos com o cinzel e, posteriormente, ajuntou a isso seus dotes na ourivesaria e no artesanato fino.
Trabalhou na única marmoraria da região e, assim, pôde contribuir na rica arquitetura patrocinada pelas pepitas de ouro dos abastados coronéis, travestidos de mecenas. E foi trabalhando sob encomenda destes, da igreja e do então prefeito que pôde ele sustentar-se e ganhar relativa fama.
Curiapeba ganhou prestígio e perfeição a partir daquelas hábeis e rudes mãos.
Suas mais memoráveis obras eram: o chafariz da Praça das Boiadas; o arco da Igreja de Senhora Sant’Ana; o interior e as iluminuras da igreja do padroeiro São Roque, na Praça dos Jatobás; o monumento “O Garimpeiro”; fachada e balaústre do Velho Cadeião; os ornamentos da casa do Coronel Salustiano da Conceição; algumas peças em mármore e pedra sabão para o Coronel Esmeraldino Trancoso e o detalhamento de uma série conhecida como “Fachadas Ornamentais” para várias casas próximas à Praça das Boiadas, incluindo o prédio do escritório de Advocacia do Dr. Walcírio Toneleiros Waluá; a abóbada e a sacristia da igreja de Senhora de Sant’Ana; e, finalmente, a reforma dos afrescos “Os Boiadeiros” e o conjunto conhecido como “A Natividade do Senhor Bom Jesus”, no centro da Praça.
Aureolindo dedicou-se também à confecção de ladrilhos, azulejos e pisos de ricos traços e simetria, que enriqueceram a bela decoração dos átrios da Faculdade PAZ E HARMONIA e do Museu HISTÓRIA E ARTE DA CHAPADA.
Aqueles eram, entretanto, dias conturbados. A região crescia e se desenvolvia, os coronéis ficavam mais abastados e as gentes ficavam mais pobres. As bases da economia, além dos tradicionais milho, mandioca, feijão, estavam agora calcadas no algodão, em frutas nativas como o caju, o umbu, a mangaba, a pitanga, o araçá, o marmelo, o cajá, em frutas não nativas como o coco (adaptado à região), a manga, a graviola, a jaca, o cacau, e ainda no tabaco, na cera de carnaúba, nos óleos de mamona, babaçu e de oiticica, e em fibrosos como o caroá, a piaçava, a pindoba e o sisal.
O sisal, de origem mexicana, havia sido introduzido recentemente na região por um grande empreendedor, a princípio nos municípios de Madre de Deus e Maragogipe.
Posteriormente o vegetal veio a desempenhar um papel fundamental para a economia da região. Ele trouxe consigo as cercas demarcatórias de propriedades e uma incontável série de possibilidades, através da utilização das fibras que transformavam-se em cordoaria.
Rivalizavam com ele as lavouras fumageiras do Recôncavo Baiano, que davam ao estado a notoriedade de grande produtor e exportador de charutos. O berço desta atividade encontrou lugar, principalmente, além de Maragogipe, nos municípios de Alagoinhas, Cachoeira, Muritiba, Cruz das Almas e São Félix.
Os abastados coronéis e politiqueiros não dispensavam seu charuto fino e assim a indústria do tabaco tornara-se o sustentáculo econômico daquela região.
Tudo se converteu num hábito social, pois comumente se viam aqueles abastados latifundiários, donos de engenho, pecuaristas, etc, terem suas prosas mergulhadas nas silenciosas baforadas de um Regalias ou de um Suerdieck.
Mas tudo ainda estava voltado para o garimpo que, embora já agonizante, conservara ainda as marcas de gloriosos tempos.
O ciclo do ouro havia mudado completamente a política por aquelas bandas.
Os candidatos à fortuna reuniam-se na Praça das Boiadas, embrenhavam-se mato adentro e só retornavam dias depois para negociarem seu rico filão. Esses retornos eram sempre esperados e, via de regra, seguiam acompanhados de grande comemoração, regada a catiloia, baião e forró.
A riqueza havia invadido a região, eram épocas de muitas festas, fossem estas promovidas pela elite do gado e do ouro ou fossem festas populares e tradicionais, como as micaretas.
Quanto ao grande Escultor, Mestre Aureolindo, mesmo tendo para si a honra e a glória de contribuir com sua arte para o engrandecimento daquela região, continuava pobre, simples e tranquilo, e quando alguém, admirado por seu talento, lançava-lhe um elogio, ele contestava:
– Meo fio, Deus feiz, Deus criô, eu cinzelo!...
Havia nas palavras daquele homem um quê de sobriedade filial.
Suas palavras eram sinceras.
Quando saímos de Curiapeba, retornando à Rabo de Peixe, estava um sol de rachar mamonas, algumas nuvens nos olhavam em tom carrancudo e ameaçador.
Estávamos entrando em março. O período de chuvas daquela época do ano era chamado de AS AGUADAS.

Cada poesia é só a gota
De uma chuva torrencial,
Que umedece a telha rota
E nunca é especial.

Pois, em tudo que escrevo,
Todo ponto se assemelha
À umidade em relevo
Que consome cada telha.

E a chuva quando para,
No telhado umedecido,
Tem então a mesma cara
Daquilo que foi escrito.

Muitos, próximos a mim, diziam: “o mês de março promete, o mês de março promete, março promete...”. O que ele prometia eu não tinha a menor ideia, mas já estava convicto de que cumpriria. Dito e feito, o mundo desabou em chuvas, eram águas que Deus mandava pra todo lado. Um mundaréu absurdo de águas, resolvido a acabar de vez com a seca do sertão.
Curiapeba se transformara num flagelo vivo, os rios subiram, as vazantes transbordaram, as inundações e suas temíveis consequências eram visíveis em todas as partes. A mais atingida fora a região ribeirinha do rio Canjica, na vila do Alvaiade, próximo ao cemitério da Paz Eterna. Curiapeba estava em polvorosa.
Na fazenda, construída em um planalto, não sentíamos este grau de calamidade.
Por outro lado, em detrimento das agruras por que passava a região, os benefícios da chuva são impressionantes, o maior deles é o de unir as pessoas. Haja vista que Bendengó, por conta disso, reunia a esposa Fonfonfira, os filhos e netos, e eu de quebra, e dava contas de abrir a sua “trambelice” de causos e mais causos, uns reais, uns alegres, outros tristes, outros inventados e, na maior parte, todos eles absurdos.
Sentávamos sobre uns tamboretes, outros se ajeitavam sobre alguns tocos ou bancos de madeira, todos próximos à fogueira, e então o cabra destrambelhava a contar, a gesticular e fazer força como se fosse partir para o enfrentamento, ele próprio, de seus personagens invisíveis.
Sentados, entre os demais, eu e Filó ouvíamos tudo, atentos aos mais ínfimos detalhes. Não é preciso dizer que, vez ou outra, o velho Bendengó tinha o despudor de forçar-me a dizer algo sobre literatura, recitar poesias ou falar de minhas experiências na cidade grande.
Entrementes, aqueles se tornavam momentos de indescritível preciosidade e traziam-me sempre à memória os tempos idos de meu pai, no engenho dos Torquato, nos grotões da Zona da Mata Mineira, quando as estórias da Besta-Fera, Papa-Figo, Cabra-Cabriola, Barba-Ruiva, Mula-sem-Cabeça, Lobisomem, Saci-Pererê, e não sei quantos tinhosos mais brindaram-me com noites e mais noites de insônia, atracado a um medo descontrolável, levando-me a buscar refúgio no silêncio consolador de minha mãe que parecia estar sempre inteirada de meus medos sem a necessidade d’eu dizê-lo.
Bendengó nada tinha de meu pai ou mãe, porém era dotado de uma imaginação assombrosa para contar aqueles causos do “Arco da Veia”.
Filó, com um sorriso enigmático, me olhava silenciosamente, como quem diz: “ele é assim mesmo” ou “vá te acostumando”.
E lá estávamos nós...
Uma dessas estórias, ditas à luz da lamparina, lembro-me bem, falava de um fato ocorrido nas brenhas da Serra do Itiúba e envolvia uma família de posses daquela região.
Começava ele, Bendengó, suas estórias sempre assim: “Assunta aí, meus fio. Esse causo se passô...”
Todos escutávamos Bendengó, sem pestanejar e, dentre todos que o ouvíamos, sempre estava presente Sá Colodina, uma espécie de mãe preta, mãe de todo mundo, que era toda ouvidos. Trazia no canto da boca um cachimbinho de barro, um pano branco enrolado na cabeça de algodão e os olhinhos semifechados. Abençoados olhos de quem havia declarado paz ao mundo.
Ela era uma ex-escrava, de origem ignorada e cuja idade nem Deus sabia. Tinha a quase centenária paciência das pessoas que já viveram o bastante pra não terem pressa. Gostava de estar no meio das gentes, gostava de contar suas estórias e gostava de ouvir as de Bendengó.
Sua cabeça de algodão e seu sorriso de quem via graça em cada coisa escondiam a memória da sucessão de coisas passadas naqueles recantos. Quando ela abria a boca pra relatar suas histórias, era como se um livro fosse aberto e tudo ao redor parecia calar-se pra escutá-la. Não tinha nada pra deixar ao mundo, nem netos, nem filhos, nem parentes; só a memória de um passado, preso ao fio de linha de sua tênue vida.
Aquelas eram cenas raras, belas, inquietantes. E eu, afortunado pelo destino, convivia com pessoas que viviam a vida no seu todo.

04 - ZECA BROTOEJAS, UM FALASTRÃO INCORRIGÍVEL E ENSIMESMADO

No dia seguinte, fui à cidade para resolver algumas pendências e rever João Emílio Krauser que, há tempos, não via.
A vida parece brincar de fazer Homens. Não sei se ela se frustra, quando em vez, quero crer que, amiúde, não...
Acredito mesmo que a maioria de seus experimentos dê certo. Assim é como, nessa altura da vida, vejo as coisas e tomo por base este povo. Este bravo e aguerrido povo que desfia as intempéries, as agruras, os inconvenientes e os desmandos e se sobressai, sobrevive... E vive...
Assim é como vejo o sertanejo, que, via de regra, parece emprestar da vida a sua batuta, o seu bastão e começa ele mesmo a doutrinar e calibrar o destino a seu modo, à sua maneira.
Assim era Zeca Brotoejas, a quem conheci por um descuido, despejando em uma verborragia contagiante, em uma mesa do bar do João Emílio Krauser, uma séria de provérbios, impropérios; dizeres e ditos dos mais inusitados. Na oportunidade, pra variar, ele baixava a lenha em Machado de Assis, o famoso autor do Dom Casmurro, e sua “mediocridade crassa” (palavras dele). O dito estava condicionado às intempéries da catiloia, isso não o entorpecia entretanto. Era um caso raro de embriaguês lúcida.
Usava uma camisa de bulgariana de um tom pastel, calça de brim e alpercatas de sola surradas pelo uso.
Sua aparência denunciava a decepção, o desconsolo e ao mesmo tempo um intragável pessimismo e intolerância para com a vida, as pessoas, cães e gatos.
Não sou de puxar uma prosa e ficaria a vida inteira sem dirigir-me a ele. Devo acrescentar que não é nenhum tipo de apatia ou intolerância para com o gênero humano e sim uma característica pessoal minha e que não recomendo a ninguém.
Todavia ele dirigiu-me a palavra como quem espera nada além de um assentimento.
Bem, o fato é que bêbado conversa até com paredes e portas e aquele sujeito achou de meter-se com a minha vida e disse o que pensava de nós, “engomadinhos da capital”, num tom desafiador.
Tinha uma poética boa, sóbria e agradável.
Além ou apesar do hálito insuportável, tinha uma dialética atraente e um conhecimento sobre as condições humanas e políticas fortemente desconcertantes.
Extravasava tudo isso em sua poesia.
Como sobrevivia, não sei, de vento talvez, pois suas mãos não apresentavam calosidade, sua conta no bar do Krauser parecia nada invejável e sua condição momentânea parecia suplicar um mais apurado cuidado higiênico.
Se um bom poeta deve ser uma espécie de desregrado, azedo, intragável, desleixado e boêmio, aquele homem era o mais exaltado dentre eles.
A catiloia era para ele como uma bebida que desse alento e esperanças ao corpo cansado, e sua poesia era como uma necessidade de falar aquilo que ninguém estava disposto a ouvir e entender.
Normalmente essa é uma constante entre os poetas: ser incompreendido. Mas ele... Bem... Ele fazia por merecer...
Mas uma coisa eu sabia e estava certo: seríamos amigos.
Nossa relação seria, no mínimo, cordata, muito diferente da que eu manteria com Dona Lina.

05 - A BENZEDEIRA QUE ERA UMA FUTRIQUEIRA DE MÃO CHEIA

Marculina Gravataí Horizonte, ou Dona Lina, era, dentre tantas outras qualidades, uma benzedeira, nascida, segundo diziam, abençoada para dar cabo deste ofício.
Em seus benzimentos não impunha limites, benzia contra cobreiro, praga de urubu, mal olhado, “difruço de peito”, espinhela caída, dor de quengo, “mulera aberta”, nó de tripa, etc. e, juntamente com isso, promovia, por sua conta, a aproximação de casais, mesmo que o pendor amoroso não fosse recíproco.
Seu antepassado (assegurava ela) havia sido um paiaiá, de quem herdara todo o conhecimento curador. Assim, era ela uma artífice no manejo de raízes, sementes, ossos, raspas, cascas, unhas, chifres, etc.
Era mais solicitada que o Dr. Clepaúva e eram mais eficazes também, diga-se de passagem, o seu curandeirismo, as suas garrafadas e os chás de alecrim, folha de laranjeira, funcho, guaco, carqueja, losna, etc. A velha tinha a cura “praquilo” que a imaginação concebesse. Procuravam-na para dar jeito em “mordida de cobra”, úlceras malignas, vento-virado, “istuporação”, “tosse cumprida”, bucho virado, “furunco”, cabeça-de-prego, barriga-d’água, derrame, mal-dos-sete-dias, sangue pisado, varicela, osso fraco, “lumbriga”, e por aí vai.
Tinha também os banhos feitos com espada-de-são-jorge, lírio, folhas de fumo, alho macho, guiné, arruda, galho de amoreira, rosas brancas, jasmim, palma-de-são-josé, gengibre, jurema, imburana, etc.
Através de suas garrafadas, infusões e benzimentos ela desafiava os mais preclaros doutos da ciência médica.
As atuações de Dona Lina eram precisas, tiro e queda.
Agora, em relação aos casamentos arranjados, se seriam abençoados pelos céus, essa é uma outra conversa.
Apesar de sua magreleza e dos seus cabelos brancos, tinha uma vitalidade de cavalo. Seu dia era dedicado aos afazeres dos mais diversos e, dentre eles, o hábito de falar mal da vida alheia. Também se dedicava a benzer, cozer, trazer rebentos ao mundo, aconselhar, etc.
Ah! Sim, essa era a outra qualidade de Dona Lina, se um casal estivesse se desentendendo, bastava dois dedos de prosa com a velha e pronto. Quanto aos rebentos trazidos ao mundo, basta dizer que metade da cidade era composta de seus afilhados e a outra metade devia-lhe favores.
Essa mulher era uma peça rara, ou como diria Odilon e sua boca desenfreada: “uma praga de urubu” – “uma futriquera catinguenta qui tinha parte com u demo”. Quando ela se dava com alguém, este aventurado virava santo, especialmente se fosse endinheirado, mas, do contrário, se não fosse com a fachada do infeliz (como era o meu caso), ela o pintava com todas as cores do inferno.
Assim, na boca dessa mulher, transformei-me em todo o possível e imaginável, desde desocupado (a sempre constante mania de achar que escritor é vagabundo) até ateu. Fez mesmo o favor de inventar, maldizer e levar ao conhecimento dos padres Giracino Bembém de Arruda Real e Cosmorâmico Canindé minhas maldosas e pecaminosas intenções ateias. Tornei-me o vivo retrato da heresia.
Tudo porque, em determinada circunstância (oportunidade em que fui pegar um remedinho pra calombos e um unguento para queimaduras), opinei sobre seus métodos para atrair, os quais julgava inadequados, e tudo porque ela cismou de ajeitar um encontro entre mim e uma senhorita cuja existência eu desconhecia. E arrematei dizendo, naquela oportunidade, que isso feria a lógica e ia contra certos princípios óbvios.
Não teve remédio, certa de suas convicções, ela começou a arquitetar um modo de prejudicar-me e tão convicta estava que nem uma conferência episcopal a demoveria de suas ideias.
O fato é que depois de suas “arengagens” eu fiquei tido como uma espécie de ser repugnante e fiz fama entre as beatas de ambas as igrejas, que concluíram por adquirir o hábito de se benzerem sempre que comigo cruzassem.
Velha embusteira miserável, isso sim, como diria o bom Odilon, mas, devo atestar, operava grandes prodígios; o de conduzir ou mudar a opinião pública, o de manipular o dogmatismo ecumênico e o de levar-me a rever conceitos que não emiti e opiniões que não dei.
Que algo mais fabuloso pode haver?

06 - MINHAS IDAS AO ITIÚBA, A CHAPADA DIAMANTINA BAIANA

... isto é sertão, isto é Brasil, isto é nossa gente!... uai, sô!...”
Aristides Theodoro

Depois dos entreveros com Dona Lina, instaurou-se uma época de paz e sossego em meus desalentados dias.
Acabaram-se as “trombas d’água”. A terra estava gorda, agradecida e oferecia suas bênçãos ao mundo dos viventes.
Curiapeba ainda se refazia dos estragos provocados por aquelas chuvas, sobretudo em algumas regiões específicas.
Haviam ficado para trás as manhãs cinzentas e cansadas. A brisa amena invadia os campos. Era uma imagem parada, além do tempo, apenas parada, sem motivo.
Bendengó já tinha rumado com seus apetrechos, fazenda afora. Os demais estavam dando comida aos bichos ou ordenhando as vacas.
Meu compromisso, naquele dia, seria o de concluir alguns artigos para um jornal do sul. Filó, entretanto, achou de convidar-me a ir com ela ao Itiúba, levar uma encomenda de seus bordados. Assegurou-me ser aquela a oportunidade de minha vida, em que eu conheceria uma região além do imaginável, encantadora, o paraíso na terra.
Pra falar a verdade, não estava nada interessado naquela viagem, mas com ela iria ao lugar que fosse.
Itiúba ficava a poucas léguas de Curiapeba, e por lá já havia eu passado quando de minha chegada à cidade.
Poucos eram os meios de transporte e o mais eficiente deles, a ferrovia, que ligava o litoral com o interior do estado, não chegara a Curiapeba.
Seguimos com Marineta, uma égua de propriedade do Dr. Veloso. O percurso era um misto de encantos naturais e estradas poeirentas e tortuosas.
No caminho topamos com uma boiada, dessas que levam metade de um dia pra atravessar a estrada. Eram bois do Coronel Dromedário Carmelinho, destinados à Feira de Santana e denunciados pela marca DC gravada no lombo dos bichos a ferro quente. Carmelinho era um homem de posses, dono de uma carranca de dar medo e de uma personalidade impossível de descrever. Tinha o olhar de boi furioso e um sorriso cínico. As suas intenções eram como tatu entocado: desconhecidas e imprevisíveis.
Com pouco tempo chegamos.
A casa da anciã ficava em um vilarejo centenário, pintado a sete cores no sopé da serra do Itiúba, de nome Arruado do Brotas e antigamente conhecido como Eiras dos Pebas. O tal lugar era algo além do imaginável.
A velha aguardava-nos à porta.
Se alguém nunca bebeu um suco de cajá-manga na vida, considere essa uma recomendação. Aquela senhora tinha mãos para a cozinha como ninguém. Morava sozinha, seu marido foi-se como aventureiro pelas Lavras Diamantinas, em busca de fortuna, nunca mais retornando. Diziam ter ele perecido em uma luta brutal com um tal de Marroás. Outros diziam que fora comido por onças, o bicho mais abundante e temido naqueles fins de mundo.
Não tiveram filhos e sua única companhia era a solidão, os quitutes, o silêncio da serra e Filó que sempre a visitava.
Ficamos para almoçar, sim senhor, e ninguém me demoveria daquela intenção quase pecaminosa. A comida oferecida por ela não me escaparia nem sob torturas. Tínhamos lá, à nossa disposição, um cardápio posto entre o apreciável e o irrecusável, encabeçado por ensopadinho de cobó e galinha d’angola à cabidela.
Nunca tinha comido nada parecido. Aquela mulher, ao fogão, parecia não cozinhar e sim reger uma orquestra, coro e vozes. Entretanto, a velha era um tanto inconveniente, já que perguntou à queima roupa se eu e Filó estávamos namorando. Foram dois rostos vermelhos, duas vozes engasgadas e duas respostas sem sentido. E a danada da velha ainda arrematou: “Ah, eu sei, conheço bem disso. Sei muito bem como é!...”. Não entendi nada de suas afirmações, mas não discordaria de alguém que me dera para comer ensopadinho de cobó e galinha à cabidela, acompanhados de suco de cajá-manga. Ficou o dito pelo não dito, nossas intenções não foram sabidas nem reveladas. Ela brindou-nos também com suas histórias de homens valentes e aventureiros desbravadores daquela região.
À tardezinha nos fomos com a promessa de um retorno breve.
Nos dias que se seguiram pude conhecer, de per si, um pouco mais dos encantos da região, desta vez sozinho.
A Chapada Diamantina baiana é de uma riqueza natural assombrosa. Sua formação consistia em um extenso planalto com picos elevadíssimos e uma paisagem extremamente heterogênea.
Já não mais havia a abundância dos preciosos minérios. O ciclo da mineração havia encerrado suas atividades no começo deste século (XX), com o esgotamento das jazidas. Entretanto, a exuberância permanecera no lugar, o encantamento, o inexorável jamais se esgotaria. Aquele lugar com seus cânions, lagos, rios, pássaros de variegadas cores e trinados e tantos outros animais e belezas naturais não seriam vistos em outro canto do mundo, estou seguro.

* * *

Nas idas e vindas ao Itiúba travei conhecimento com grandes pessoas daquele lugar. Itiúba, cidadezinha pacata, um fim de mundo, era menor que Curiapeba e apresentava algumas diferenças culturais com a precedente. Dentre estas diferenças, estava um, quase natural, gosto pela leitura e pelas artes. Conheci alguns intelectuais, participei de algumas discussões acerca do Modernismo, proeminente movimento paulista, que pendia pela redefinição do conceito artístico, do qual eu não era um devotado partidário. Acreditava que os bons rebentos desse movimento cultural haviam sido Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia com seu Juca Mulato e Raul Bopp, os demais eram questionáveis. Opiniões à parte, as reuniões ali eram sempre interessantes.
Em certa ocasião conheci um grande amigo de Aristarco (aliás, todos eram amigos de Aristarco, que apesar de sua constante acidez, parecia ter amigos em todos os lugares e ocasiões), o seu nome era Antão Calasans, homem sóbrio e de grande discernimento, jornalista e dono do jornal A Voz do Sertão. Na minha entrevista com Calasans, colhi interessantes observações sobre A Coluna Prestes e suas consequências nefastas para a região.
A arte dispensa formalidades e apresentações, pude enriquecer meus conhecimentos nas poucas palavras trocadas com aquele senhor. Fez ele o irredutível obséquio de apresentar-me a outros mais da cultura da cidade, igualmente em visita no A Voz do Sertão. Fiquei algo entre boquiaberto e confuso ao saber que alguns deles haviam lido alguns de meus artigos.
Antão, inteirado de minha experiência n’ O Diário da Capital, não viu inconvenientes em convidar-me para ser colunista naquele jornal e cuidar de uma oficina de literatura, comandada pelo próprio e encabeçada pelo escritor Ubirajara Godoy Bueno. Notei que os demais me olhavam com assentimento e apenas dei-me total conta da situação e do ocorrido quando soou a última nota, aguda e preocupada, do meu “sim, aceito com prazer”.
Por que as pessoas de uma cidadezinha qualquer perdida nos socavões do Brasil acreditam que nós, saídos das grandes cidades, sabemos tudo, ou sabemos mais? Bem, eu também não tenho a resposta...
Confesso que não pus atenção a mais nada do que se passou, sentia-me como se estivesse casando naquele momento e saí dali com os ombros arqueados por uma responsabilidade que tentava evitar desde a saída de O Diário da Capital, em São Paulo.
Pensava, contudo, não sei se para o bem ou para o mal, estar sendo útil àquele senhor. A necessidade de ser útil sempre norteou meus sentidos e, de quebra, meteu-me em boas enrascadas.
As horas se passaram numa procissão de sombras sonolentas, vultos diversos, velhos fantasmas do passado que traziam à minha mente as picuinhas, o proselitismo exacerbado, o aviltamento da arte, as invejas, as mazelas, amizades destroçadas e o diabo a quatro. Tudo isso se passava naquela noite em que o sono escolhera a cama do lado para dormir. Temia que tudo isso voltasse e que eu me visse novamente aprisionado e envolvido até a medula numa rede de revanchismos, despeitos, mentiras e coisas que os valham. O peso, a responsabilidade e suas consequências me aterrorizavam profundamente.
Finalmente uma voz salvadora surge do nada e diz:
– Quer um cafezium? Fiz agorinha, tá quentinho!...
Então respondo:
– Sim, quero, quero sim... Mas com pouco doce...
O sol tinha raiado no meu entendimento. Estava ficando zureta.
Nos dias que se seguiram pude antever com maior clareza a situação e o quão diferente parecia ser dos tempos idos na capital paulista.
Bem, no frigir dos ovos, me dei bem e, ao final das contas o diabo não era tão feio como quis parecer. Todos, do faxineiro ao dono, estavam irmanados num só propósito, era uma família, da qual, agora, eu fazia parte.
Antão deveria ser beatificado em vida (teríamos que propor isso com urgência), deu-me praticamente a chave de seu jornal, como quem diz “é seu, meu filho!” ou “eu confio em que farás um bom trabalho”, coisas não ditas, mas perfeitamente entendidas.
Minhas idas a Itiúba teriam, a partir de então, que ser frequentes, quisesse eu ou não e, bem... Na verdade eu queria.

07 - TROPEIROS E VAQUEIROS


"É a árvore sagrada do sertão. Sócio fiel das horas felizes e longos
dias amargos dos vaqueiros..."

(Euclides da Cunha, referindo-se ao "umbuzeiro")

Eles vinham das Alterosas, tangendo a mulada, atravessando o imenso sertão rumo às distantes terras do sul do estado e com paradeiro ignorado.
Estavam em três. O preguiçoso e carregado sotaque mineiro denunciava que eram conterrâneos meus e que deveriam, assim, ser gente de bem. Papo vai, papo vem, tive a oportunidade de relembrar um pouco minha velha Minas Gerais. Soube ainda que eram parentes entre si e que mantinham negócios por aquelas bandas.
Haviam chegado à fazenda à tardezinha do dia anterior.
Ser tropeiro tem lá suas vantagens, sabem de tudo, veem tudo, ouvem tudo e aprendem a falar tão somente o essencial, pois desconfiam até da sombra. Na hora do sono, dormem, se banham quando podem, comem quando têm fome e se sustentam com a mais natural frugalidade. A vida toma conta e põe sobre os mesmos uma vigilância constante.
Do fundo de seus bornais, sacavam todo um sertão mineiro, coisas com as quais a minha infância pôde conviver.
Com as mulas desatreladas e a trempe montada em forma de triângulo, sob um braseiro incandescente, faziam a sua refeição. Lembrava-me da minha boa e inocente vida no engenho, quando minha mãe forrava a mesa com as comidas que todo mineiro bem conhece: mingau de couve, canjiquinha, angu doce, tutu de feijão, ora-pro-nóbis, taioba, quiabo, jiló, abóbora-d’água e por aí vai.
Convidaram-me para fazer parte da mesa, por pura cortesia, já que não tinham comida em abundância. Obviamente declinei do convite. Bastava-me aquele aroma reminiscente e uma boa conversa.
Um deles reiterou, insistentemente:
– Num qué mesmo cumê cum nóis?...
Outro disse:
– Eita qui o trem tá bão sô!... Uai!... Injeita não, moço.
Disse-lhe em resposta:
– Não, obrigado!...
Um deles entoava em voz baixa a seguinte canção, conhecida como A Canção do Vaqueiro:

Pras bandas d’onde eu venho
Não ficou nenhum amigo,
Lá deixei o que não tenho
E mais nada veio comigo.

Um tropeiro vara o mundo,
Sem caminho, nunca para,
Seu destino é o poço fundo,
Transbordando água clara.

Pois a sorte que me guia
É eterna, nunca passa,
Renascendo todo dia
Como boi que não se laça.

Deixei-os ali e fui cuidar de meus afazeres.
Era um domingo muito agitado na casa de Bendengó. Aquele homem simples tinha a proeza de cativar e atrair gente de tudo quanto é canto.
No dia seguinte, aos primeiros sinais do alvorecer, aquela comitiva de homens e mulas já se havia enveredado pelos rumos que o destino pusera em suas vidas e eu, depois de um desjejum, fui ter com meus quiabos.

08 - A CULINÁRIA CURIAPEBENSE

Quiabos à parte, o segredo para uma boa comida está no tempero, já dizia minha mãe.
Pesava entre o inusitado e o absolutamente simples os hábitos culinários daquela região, havia quase feito escola, eu diria.
À exceção de Bendengó que tinha um hábito nada comum de comer coisas que se arrastam e voam, o padre Joaquim Torres Barrada (um comilão inveterado) e o companheiro de letras, o poeta João Emílio Krauser, proprietário da fazenda Pinhé, brindavam o mundo, às vezes, com receitas extraordinárias.
Torres Barrada era uma espécie arredondada e falastrona de Torquemada, um inofensivo bonachão, entretanto era um bon gourmet e toda sua produção culinária tinha um único propósito: satisfazer a si próprio. João Emílio era um despretensioso escritor que na arte de cozinhar inventava mais do que sabia. Na cozinha eles alçavam do fundo de sua invencionice uma preciosidade em forma de cozidos, doces e licores dos mais diversos, que faziam frente à rica culinária local, com suas: buchada de bode, galinha-d’angola ao molho pardo, galinha à cabidela, capote à moda do sertão, guisado de cobós, queijo de coalho; umbuzada e licores de jenipapo, guabiraba, jambo, jabuticaba, sapoti, etc.
É necessário fazer jus igualmente aos queijos, manteigas e aos preciosos vinhos de Dona Dreiser Sister Carrie, dona da melhor adega particular de Curiapeba. Igualmente eram excelentes os quitutes de Sá Cotinha e ainda as preciosidades saídas das hábeis mãos das negras Valei-me, Ostoporina Suspirova e Sá Generosa, que as ofereciam na pensão que mantinham em frente à Praça das Boiadas. O fato é que tudo contribuía em favor da obesidade universal. Somando-se a isso, em toda a região da Chapada Diamantina preservava-se certa tradição em alguns pratos típicos, de notada peculiaridade e que foram herdados dos antigos garimpeiros, que eram, entre outros, arroz de garimpeiro, cortado de palma, picadinhos de verduras, fritada de mamão verde, godó de banana, maturi, peixe no bamba, pirão de parida, pirão de caldo da galinha, salada de batata-da-terra, sopa de fruta-pão, além de pratos de sabor refinado, ou doces e manjares, como a ambrosia, balas de jenipapo, brevidade, e os licores de manga e cajazinha.
Certamente que o cozido em panela de pedra-sabão ou panela de ferro, submetidas à paciência do fogão a lenha, tem um sabor especial. Algumas coisas obedecem a uma verdade irrefutável, ou seja: os assados em forno de barro sempre obedecem à frágil norma de serem saborosos e têm por si sós um sabor especial; a água da cacimba mata melhor a sede e mais bem coopera no preparo dum bom cafezinho, passado no coador de pano que melhor fica se acompanhado de um respeitável pedaço de bolo de fubá ou um biscoito de polvilho, gostosura das gostosuras; nas beiradas do tacho se esconde o verdadeiro sabor do doce; o arroz socado no pilão é sempre melhor; e por aí vai.
Mas, contrariamente ao apregoado pelo padre Barrada, pelo poeta João Emílio e os demais entendedores de garfos e panelas, Bendengó tinha seu próprio jeito de lidar com a cozinha, sua predileção (que comprometia também a família) estava direcionada para os gambás, porcos-espinhos, inhambus, preás, tatus, cobras, rãs, lagartos, cotias, tamanduás, etc. Este era o nosso variado cardápio.
Eram carnes apreciadas por Bendengó e outros tantos partidários. E, por aquelas bandas, era sempre uma refeição garantida, dada a sua abundância.
Quanto ao preparo e extrair daquelas feras selvagens uma boa refeição, bem, essa é uma outra história; segredos guardados a sete chaves. E eu, por mim, estava fadado a comer coisas falantes, voantes, rastejantes e repugnantes.

09 - A ÉGUA PRENHE

Bem, culinárias à parte, aquele fim de mundo tinha suas características bem alicerçadas.
A vida ali aprendera, ela própria, a ter uma outra conotação. Todas as verdades do mundo pareciam ali oferecer um novo sabor, uma significação especial.
Isso se estendia a toda classe de ser vivente.
Um desses era Marineta, égua de juízo torto e ideias próprias.
Marineta... Ah! Marineta... Essa égua meteu na cachola que teria um potrinho, entrou no cio porque deu na cabeça e achou por conta própria um cúmplice para ser pai de sua cria.
Enamorou-se de um pangaré, que era uma espécie de Zito Borborema dos equinos e não servia nem para os carrapatos, e lá se foi a dar cabo de seus desejos maternais.
Naqueles dias eu estava em Curiapeba por conta de algumas pendências mal resolvidas. Fui assistido, na ocasião, pelo Dr. Walcírio Toneleiros Waluá, um bom advogado, homem cordato, sensato, sóbrio, sorridente, espirituoso, brincalhão e capaz. Possuía uma extrema facilidade de comunicação e era detentor de uma verve e erudição consideráveis. Pertencia a uma das famílias ilustres da região, os Waluá. Dava aulas na Faculdade PAZ E HARMONIA e era um historiador, conhecia todos os personagens e cada fato ocorrido naquela região, desde “um não sei quando”.
Seu escritório ocupava duas salas no andar superior de um velho sobrado, um antigo casarão, agora reformado, e que tomava conta de toda uma esquina em frente à Praça das Boiadas, nº 08.
Na sua reconstituição, teve-se o excepcional cuidado de preservar cada pormenor da obra originária de primórdios insabidos.
Dizia-me ele que aquela fora uma das primeiras construções em pedra e cal e decentes da cidade e testemunhara toda uma sorte de acontecimentos que assolaram Curiapeba em tempos idos, com invasões de jagunços, desmandos de coronéis, disputas de terras, etc. Cheguei a crer que o próprio Átila teria passado por ali em carne e osso em uma de suas incursões e que Leão I estivera ausente na oportunidade.
Ainda arrematou, dizendo que a mais recente dessas invasões, desta feita por cangaceiros, havia ocorrido no município vizinho de Queimadas, onde Lampião e seu bando, às vésperas do Natal de 1929, entraram na Delegacia, renderam os policiais e mataram todos.
Curiapeba, segundo aquele historiador, deveu seu nome aos Peba, antiga família portuguesa, detentores de grandes porções de terra. Ao nome Peba depois foi ajuntado o nome Cúria, devido aos padres que por cá vinham fazer suas missões e que, de passagem, cismaram em rebatizar as terras, cujo nome até então era “Beleza”, como Curia-Peba. A Santa Igreja abençoou o atrevimento dos santos párocos, travestidos de bandeirantes, e a história a partir de então ganhou um novo rumo.
Falou-me também da mal sucedida intenção da família que, além do campo editorial, encampara a ideia de criar um Banco local de proporções regionais. Confessou em tom de pesar que tudo culminou em uma derrocada espúria e fraudulenta e que o Banco, depois, foi arrematado por um preço vil por um grupo de associados estrangeiros e convertido no hoje conhecido Banco Alfomares do Nordeste Brasileiro.
Bem, o fato é que me dei por contente pelo profissional que me atendia e pelo estudioso e bem orientado senhor com quem acabara de prosear longamente.
Assim, pendências resolvidas, concluímos a conversa, retirei-me agradecido e, ato contínuo, preparei-me para deixar a cidade em retorno à fazenda Rabo de Peixe, para juntar-me aos Bendengó.
Todavia, não me saía da cabeça aquele nobre e austero “Casarão da Esquina” todo vestido de branco, a reluzir sob o brilho do sol sertanejo:

O velho casarão da esquina
Na sua estrutura parece
O ancião que combina,
Uma vida que não termina,
E aquilo que não se esquece

E em seu silencio redobrado,
Na pedra lavada, senhoril,
Remexe às coisas do passado,
E faz da gente um sobrado
Que o não lembrado construiu.

E nesse termo sem lembrança,
O tempo às vezes se retarda,
E traz de novo a esperança,
O encantamento da criança,
Que o ancião inda resguarda.

A caminho da Prefeitura, dei de encontro com Aristarco que vinha com dois sujeitos a tiracolo. Este me apresentou os dois tipos, ambos intelectualóides, ambos poetas. O primeiro, de óculos com aro arredondado, era um tipo posudo e escrevia poesias, próximas ao chinês, já que ninguém as entendia a não ser ele próprio, e que pensava, claro, haver exprimido nelas toda a lógica universal, o suprassumo da sabedoria; o segundo sujeito saiu-me com um modo doido de fazer poesia; que consistia em se escrever tresloucadamente, como se em um tipo de transe mediúnico e onde o escritor deveria verter no papel, irrefletidamente, uma enxurrada de palavras atabalhoadas, sem sentido. Era, em verdade, um atentado contra quem estivesse em pleno gozo de suas faculdades intelectuais.
Diziam ambos serem de uma renomada faculdade paulista. Se existe algum momento em que o estereótipo funciona, o momento era aquele, pois eu seria capaz de apostar uma abóbora peca que os tais eram mesmo de lá.
Em relação ao conteúdo escrito, pra não ser completamente injusto, a princípio tentei entender, depois tentei adivinhar e por fim acabei desistindo.
Acredito que eram discípulos de alguma escola europeia, cujos sujeitos, cansados de escrever, perdem o tino poético e acabam por inventar estilos e tendências para justificar seu palavrório inconsistente e banal. Eles me pareceram, como diria Bendengó, dois grandessíssimos mandriões, uma espécie de classe média falida, desesperados à procura de afirmação.
Por fim disseram que, sob sugestão de Aristarco, gostariam de um prefácio meu para um livro que estavam terminando de escrever a quatro mãos.
Bem... Despedimo-nos. Saí dali para a Prefeitura, para encontrar Macário. Quanto aos dois sujeitos ficamos de ver depois a questão do prefácio. Coisas que ficam para o ad infinitum.
E quanto a Aristarco que havia sugerido que eu prefaciasse aquele Opus Magnum da poesia, pensei: Sujeitinho miserável, esse Aristarco, ele não se mete, mas me enfia em cada roubada!... Uma cumbuca sem tampa, isso sim!...
Não paravam de chegar turistas naquele fim de mundo, naquele buraco de onça. Curiapeba parecia o caminho das Índias tupiniquim.
Meu último compromisso, antes de seguir para a fazenda, seria atender ao convite do professor Macário Ohana Vangélis. Ele desempenhava um bom papel na área cultural de Curiapeba e encampava valorosamente algumas atividades culturais.
Macário, insigne e conceituado professor, membro da Academia Curiapebana de Letras, era adepto do Modernismo (nem tudo é perfeito), e tinha um talento natural para as artes, seus escritos tinham a rara beleza do inusitado, do surpreendente, do eloquente.
Naquela oportunidade, ele desenvolvia um projeto com artes cênicas com um cineasta da capital paulista. Seus ensaios de Cinema Novo prometiam criar o pós-moderno das artes visuais, tracejar o cinema do assombro, etc. Seria, talvez, mais um dos malfadados rebentos que se seguiriam à Semana da Arte Moderna.
Esse era Xandão Cosanostra, um baixinho que equilibrava sobre os ombros uma cabeça cheia de ideias. Macário nos apresentou e o seu Cinema do Espanto era uma coisa meio doida, mas interessante e, sem dúvida, revolucionária.
Comprometi-me com ambos a retornar para a apresentação de O Grã-Cão do sertão, despedimo-nos e fui-me.
Fazia já duas semanas que me ausentara. Uma vez na fazenda, fiquei sabendo das peripécias de Marineta e tudo, claro, pela boca de Filó que se referia à égua como quem falasse de uma amiga, uma parenta. Comentava suas aventuras como se fossem arroubos passionais de adolescente. De adolescente Marineta não tinha nada.
Resultou que, após várias cercas puladas, idas e vindas, lá estava Marineta prenhe e, com ela, Filó, que não arredava o pé para nada, era toda cuidados para com a égua. Óbvio que não existia ainda o mínimo indício da prenhez, que estava prenhe era sabido, todavia as suas formas físicas ainda não o denunciavam e muito tempo se passaria até que o fizessem.
Quando Filó se atirava de corpo e alma aos bordados, podia o mundo se acabar ininterruptas vezes. Sua compenetração era tamanha que tecido e artesã se fundiam no bordado. Ambos se justapunham em uma mesma e única formação atemporal.
Boa parte do seu dia, quando não estava junto a Marineta, era a isso dedicada e sua criação era, invariavelmente, bela.
Não era então apenas um ofício, não!... era mais que isso, era o modo como expressava tudo de si.
Ela ficava ali, sentada sobre as pernas, horas a fio e eu, vez ou outra, quando o tempo o permitia, ficava de um canto, calado, ora observando, ora lendo, mas sempre atento ao significado de tudo.
Por vezes, de entreter-me observando-a em sua arte, sentia-me eu próprio como o Tecido Bordado, nem mais nem menos...

Me sinto como um bordado,
Que, preso ao pano de chão,
É só um motivo decorado,
Onde os outros pisarão.

E no contraste agressivo,
Com tudo que não se baste,
Os opostos eu revivo,
Na nobreza deste traste.

Assim no nefasto, imundo,
Viés da peça de linho,
Compreendo um outro mundo,
E me torno mais sozinho.

Na oportunidade, eu relia o livro Solilóquios do nômade Ibrahim Ibiza, depois de longo afastamento das páginas escritas. Aquela releitura contribuía para meu estado de circunspeção.
Por essa mesma época, tive contato com a obra de dois ilustres escritores de Lençóis, cidade vizinha a Curiapeba, Urbano Duarte e Afrânio Peixoto. Este último, além de escritor excepcional, era médico de um raro talento e foi o próprio que, por ocasião da morte de Euclides da Cunha (1909), fora chamado a examinar o corpo do desditoso escritor assassinado e emitir o respectivo laudo.
Lia também, tomado por empréstimo de Aristarco, Capistrano de Abreu e seu “Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil” e terminara recentemente outros três: O diário lírico Poesias Tristes de Marcus Di Philippi; os Diálogos Curtos e Extensas Reflexões, e Diálogos Filosóficos, estes dois últimos de Paulo Moriassu Hijo, com quem me havia encontrado, em minha chegada a Curiapeba, e que me enviara da capital paulista seus dois livretos.

10 - A VISITA DO SEU DOTÔ

O Dr. José Vinhais Veloso e sua esposa distanciavam-se tanto daquela fazenda que pareciam visitantes esporádicos.
Assim foi que, depois de certo tempo, quando nada de anormal acontecia e eu continuava em meus afazeres literários, e as atenções gerais rondavam lá pelas bandas do curral, convertidas em cuidados a Marineta, o tal achou de visitar-nos.
Aquele era, até o momento, um dia típico, como os demais, eu já estava afeito ao manuseio da terra e, naquele momento, fazia o replantio de uma parte das hortas, coisa quase que rotineira. Os demais igualmente estavam envolvidos em seus trabalhos, como sempre.
O sertão tem suas leis. Leis não escritas, mas perfeitamente claras. Uma delas é: quem trabalha come. Algo assemelhado aos princípios do monasticismo ocidental e seu Ora et labora.
Bem, então foi quando, inesperadamente, o Dr. Veloso surpreendeu-nos, chegando à fazenda, após muito tempo de distanciamento, com seu jeito ensimesmado e cara de quem chupou limão com casca. Apeou. Segurou o chapéu, enxugava o suor da testa, saudou-nos discretamente, deu um imperceptível sorriso com os lábios cerrados e chamou Bendengó para uma conversa reservada. Os demais saímos dali e continuamos com nossos afazeres.
Assim todos se foram, cada qual para o seu lado; Filó foi meter-se com Marineta que estava lá pelo quinto dos onze meses de prenhez; eu continuei a preparar a terra para o plantio de quiabos e a seguir iniciaríamos a semeadura do algodão.
Quem me visse, não pensaria, por um instante sequer, que eu era um quase recém-chegado da capital, colaborava em dois jornais e tinha uma participação ativa na vida literária da região. Eu me havia tornado um autêntico capiau, torrado pelo sol sertanejo; chapéu de palha na cabeça, botina ringideira nos pés, calça de brim arregaçada até a barriga das pernas e mãos calosas.
Aquela reunião inesperada era deveras inquietante, como se percebia no olhar de todos. Mundico, um velho baixote, de barba rala e cara de umbuzeiro, achegando-se a mim, cochichou:
– Assunta aí esse minino, u dotô com essa prosa demorada num vem trazê coisa boa! Aí tem dedo daqueli apadrinhado fio de uma quenga qui num gosta de nóis.
Depois fiquei sabendo, o apadrinhado já estivera por aquelas bandas e lograra conquistar a antipatia geral. Ninguém fora com a fachada do infeliz.
Uma coisa é certa: Da língua do povo ninguém escapa.
E assim o tempo se arrastava numa imensa agonia.
O Dr. Veloso, embora de extrema circunspecção, era um sujeito, eu diria, nobre, respeitado e muito querido por Bendengó.
Mas todos estavam com a pulga atrás da orelha e alguns com um verdadeiro elefante.
A conversa entre os dois durou quase duas horas. Não sou nada curioso, mas peco por ser metódico e observador e sei que nenhuma conversa cordata e amena duraria tempo igual.
E assim foi (maldita observação metódica), depois deste longo proseamento, Bendengó nos reuniu e disse que a fazenda seria vendida.
O mundo desabou sobre nós várias vezes naquele prenúncio de noite, os olhares se tornaram agonizantes, desfalecidos.
O motivo era bem simples, o Dr. Veloso tinha pretensões de eleger um apadrinhado seu (não é que o velho tinha razão?) para o cargo de deputado e o partido lhe havia cobrado uma participação mais convincente, ou seja, dinheiro grosso.
Dentro de suas posses, o único bem era a fazenda e não via alternativa senão a de vendê-la para dar prosseguimento aos propósitos de eleger aquele que seria o nosso representante, a uníssona voz daquele povo sofrido. Que antagonismo fabuloso, a voz que iria calar as injustiças era agora a causa maior delas. Tinha já um pretendente, tratava-se do Coronel Esmeraldino Trancoso, possuidor de terras e mais terras lá pras bandas do Itiúba e que era um inimigo contumaz dos Alcebíades, família importante e endinheirada, cujas terras estavam do outro lado da serra.
Os Alcebíades chegaram à região quase ao mesmo tempo em que os Peba; ambas as famílias de origem portuguesa, sendo que a segunda ficou conhecida como a primeira a assentar-se por ali e que deu origem ao nome da cidade de Curiapeba. Aquela sugestão havia partido de alguns padrecos, representantes da Cúria, que faziam as vezes de bandeirantes.
Para a venda, entretanto, concretizar-se, era necessária a indicação do apadrinhado pelo partido, quando então ele poderia ter uma legenda como candidato.
O Dr. José Veloso ficou entre nós não mais que dois dias e retornou à capital baiana.
Jamais vi gente tão rezadeira na minha vida. Todos os agregados do doutor apegavam-se com os mais diversos santos, como quem trava uma luta com foice, enxada, ferrão e martelo – igualzinho aos tempos do Conselheiro, por ocasião da Guerra de Canudos –, na intenção de frustrar aqueles intentos. E que tanto ele quanto o apadrinhado dessem com os burros n’água.
Foram novenas, trezenas, promessas, jejuns e mil outras coisas que, nos dias seguintes, tomaram conta do lugar. A coisa estava quase a tornar-se uma romaria, uma peregrinação à Terra Santa. As rezas sacrossantas eram entremeadas com mil e uma maldições lançadas ao “seu dotô”, ao apadrinhado, aos contraparentes e a toda a árvore genealógica dos Veloso e, de quebra, a todos os integrantes do partido político. Aquela família, por razão de tal fervor, estava prestes a cair na maldição eterna.
Aí pude chegar à seguinte conclusão: se o sujeitinho conseguisse a tal legenda não o seria por disposição divina, seria à revelia ou a contragosto de tal providência. E mais, se a conseguisse, eu próprio não votaria nele.

11 - “ANTES DE TUDO UM FORTE”

Esmeraldino Trancoso era um desses coronéis que não haviam se recomposto da queda da monarquia (1889) e não o faria nunca. Definitivamente jamais seria um republicano.
Àquela época jovem e impetuoso e agora um septuagenário, conservava o mesmo rigor antirrepublicano.
Tinha enfiado na parede da sala um quadro de proporções agigantadas, assinado pelo mestre Aureolindo, e que retratava a figura do último imperador, por ele eleito como uma espécie de padroeiro pessoal. Era uma pintura moderna, provavelmente o mais belo quadro daquela casa.
O nome Esmeraldino fora dado pelo pai, fortuito possuidor das terras que abrigava uma jazida de esmeraldas de incalculável valor e que fora a responsável por elevar o nome, o poder e a fama dos Trancoso para além daquelas terras.
Havia entre Esmeraldino e Salustiano da Conceição, outro daqueles coronéis enfezados e aliado dos Alcebíades (talvez a mais importante família da região), uma pendenga que envolvia a posse de terras, léguas e mais léguas. O fato é que a coisa se arrastava desde os avós, nos tempos do império.
Acusavam-se mutuamente de posse ilegal, extrapolação de divisas, roubo de gado, emboscadas, tocaias, etc. E como ambos os lados não eram flor que se cheire, tinham lá suas culpas e razões. Era uma questão fácil de julgar, pois inocente não havia entre aquelas gentes.
Nessas pendências os mesmos envolviam-se de corpo e alma, envolviam suas famílias, envolviam famílias partidárias, politiqueiros e, por fim, capangas e jagunços, aí o sangue corria.
O delegado Ornélio Bramante Brumado, que não tinha a menor vocação para herói e nem era candidato a fazer da esposa uma viúva, não ousava interpor-se ou tomar partido de um ou outro lado, apenas registrava queixas, batia em bêbados, “mulheres de vida fácil” e recebia seu soldo mensal, nada além.
O que ocorre é que Esmeraldino Trancoso tinha criado, decididamente, um poder paralelo e dispunha de um número nada modesto de jagunços das mais diversas lapas, origens e quilates. O mais perigoso destes era um tal de Marimbondo, baixinho, preto, de nariz grande, simpático e que andava sempre acompanhado de um sujeito branquelo, grandalhão, alcunhado por Frango d’Água. Eles viviam nas proximidades da cidadezinha de Gentil do Ouro, não muito longe, e eram contratados por Esmeraldino pra tarefas que requeriam urgência ou que não admitissem falhas e isto porque Frango D’Água tinha uma pontaria como ninguém.
Marimbondo guardava certa semelhança com um outro jagunço, este de nome Neco, que fora mencionado pelo Dr. Teodoro Sampaio – quando por ali passou entre 1879 e 1880 – ao referir-se aos distúrbios provocados em diversas comunidades ribeirinhas do São Francisco, isso do lado mineiro.
O fato é que, onde Esmeraldino tinha poder de mando, as forças do estado não chegavam, eram secundadas ou desapareciam.
Aqueles seus “cabras-de-peia” ou cacundeiros obedeciam a uma só lei, a um só mando, a uma só vontade, a qual sempre cumpriam de um mesmo e único modo, facão numa das mãos e fuzil na outra.
Por vezes, entretanto, Esmeraldino, como bom político, e até pela escassez de homens da milícia, cumpria ele mesmo o poder de polícia e perseguia os bandidos a seu bel-prazer, era um misto de justiça e vingança. Era a contravenção aplicada em favor do estado.
Havia outros coronéis de mesmo quilate e que dispunham de igual força de jagunços, com os quais faziam e desfaziam, tanto que um deles chegou a medir forças com a Coluna Prestes, resultando na derrocada desta, que debandou sertão afora.
Muitos jagunços, devido a seu caráter indomável e às vezes brutal e uma série de inconvenientes, se uniram em bandos sem paradeiro fixo, tornando-se cangaceiros.
Assim era Curiapeba. Assim era Esmeraldino. Assim era Marimbondo, agora denominado Cangaceiro.
Marimbondo, igual que Cabeleira, Sinhô Pereira, Lampião, Neco, Tonho, Antonio Silvino e Dioguinho, não era de abaixar cabeça pra Coronel nem pra macaco. Ao seu bando estava agora agregado um sujeito de nome Zeca da Dó, ex-agregado e jagunço do famigerado Coronel João de Sousa Macaúbas, compadre de Esmeraldino Trancoso. O tal do Zeca era o encarregado de dar sumiço aos desafetos do falecido Coronel e tudo fez pelo patrão, menos impedir a sua morte pelas mãos do negro Resmulungo, numa boca de noite, dia de sábado e feira em Curiapeba.
Voltando a Esmeraldino, este havia tido a proeza de fazer mais inimigos do que o absurdo poderia suportar e, dentre estes, que, diga-se de passagem, não eram poucos, agora estava Zeca da Dó e, com ele, Marimbondo.
Todavia o poderio do Coronel era algo fora do normal e do sensato.
Naquele tempo o poder em Curiapeba estava nas mãos de gente como Salustiano Montenegro Polissílabo Saraiva, Cirilo Trombetas Waluá, João Tolentino, os Coronéis Dromedário Carmelinho, Justino e Esmeraldino Trancoso, Salustiano da Conceição, Dandinho, o respeitável Turmalino Olhugordo Alcebíades, o primo deste, Libério Alcanforado de Jesus Malhado Alcebíades, e, o agora não tão poderoso, Joviniano Beiramontes Peba.
A nata de Curiapeba era composta por gente importante, gente de respeito e politiqueiros, cujo ponto de encontro tinha lugar na farmácia Hipócrates, de João Tolentino Clepaúva. Eram eles, entre outros, o padre Alfredo, Dr. Guilherme Monteiro Trindade (recém-chegado a Curiapeba), o dentista Athanázio Valovelho Clepaúva (tio do Farmacêutico), o Dr. Délvio Francisco Pereira Castanho Manílio, o advogado Calcídio Sidônio Trombetas e outros coronéis do sisal. Ali também se reunia gente não muito importante, mas que tinha lá seus acessos de influência, entre eles estava o Brotoejas, o Jota Caveira, eu que fuçava por lá de quando em vez, e somavam-se a este calhamaço de falastrões incorrigíveis alguns outros personagens ilustres e vários desocupados.
Outros pontos, menos frequentados e por gente menos importante, eram a venda de Olegário Doca e o bar de Orgasmunda Pereira Cruvaldina (uma espécie de moquifo da cidade) e o Bar do João Emílio Krauser, nos dois primeiros se reuniam a gente comum e no terceiro a nata da intelectualidade, poetas, escritores, pintores, músicos, professores, fazendeiros, turistas, gente frustrada, etc. Nos dois primeiros era pra falar da vida alheia, de mulher bonita, política, caçada de onça, etc., e, no terceiro, era pra falar de coisa alguma de certa relevância.
E, finalmente, o último ponto de encontro era o Teatro Municipal e o coreto da praça, em ocasião das exibições da Banda Municipal e da Orquestra de Violeiros e Zabumbeiros. Todas as exibições públicas estavam a cargo de Tomasino Frutuoso Guarabyra, único maestro da cidade e que, por isso, acumulava essa mesma função de regente em ambas as corporações musicais. Este era cunhado do Dr. Veloso, meu anfitrião, e cujos santos não se bicavam.
Bem, voltando a Esmeraldino, este exercia uma espécie de poder sobre todos os demais e, à exceção dos Alcebíades e dos Carmelinho, ninguém ousaria contrapor-se a uma ordem sua por mais absurda que fosse, e quase todas eram absurdas. Era ele a última palavra fosse no que fosse por aquelas redondezas. Para o bem ou para o mal.
Salustiano da Conceição, conhecedor do desafeto existente entre Marimbondo e Esmeraldino, resolveu que estava na hora de mudar os rumos da política naquelas bandas.
Por intermédio de um de seus comandados, contratou os serviços de Marimbondo e seu bando a fim de dar cabo de Esmeraldino. Para isso prometia-lhes uma espécie de reconhecimento eterno pelos serviços, salvo-conduto, ou coisa que o valha, além de uma, nada irrisória, quantia em dinheiro.
O plano consistia no seguinte: Salustiano convidaria Esmeraldino para negociar algumas léguas de terras, as quais poria à venda e, quando do encontro, a meio do caminho, deveria Marimbondo e seu bando interceptá-lo e dar cabo de sua vida. Quanto aos métodos, estes não importavam.
O capanga, depois do assentimento de Marimbondo, voltou a Salustiano com a notícia do acordo firmado.
Passaram-se os dias, encontraram-se os dois Coronéis. Não é sabido o que foi firmado em relação às terras; não houve tocaia; não mais se viu Marimbondo, ninguém conseguia dar a mínima informação sobre nada...
Seguiram-se várias semanas sem que houvesse notícias.
Por fim, numa madrugada fria, encontram o corpo de Salustiano às beiras do rio das Voltas, com várias perfurações de bala e facão e um bilhete mal escrito, com letras em forma de garranchos, onde se lia com certo esforço:
“...cangacero num trai cangacero – coroné num trai coroné” – “paga di traição é u punhá!...”
Essa era a justiça de Marimbondo que, embora inimigo ferrenho de Esmeraldino, tinha lá o seu código de ética, o qual deveria ser cumprido pelos vivos e pelos mortos.
Essa era a lei do sertão. Uma lei não escrita, sem códigos e sem ritos processuais, mas repleta de princípios e ética.
Quanto ao delegado Ornélio Bramante Brumado, como não era besta, deu pouca ou nenhuma importância ao fato. Registrou o caso, continuava vivo, casado, recebendo seu salário, batendo em bêbados e “mulheres de vida fácil”, e fumando seus charutos Suerdieck, os quais mandava buscar em Alagoinhas.
 
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